por Brunno Ribeiro sensei
Com a minha vivência nas aulas, tanto de karatê quanto de jiu-jitsu para crianças, observo que uma pergunta aparece de forma quase recorrente. Na verdade, estaria mentindo se dissesse que isso acontece apenas com as crianças. Muitas vezes essa mesma pergunta também vem dos pais e até de alunos adultos.
Não sei se posso julgá-los por Afinal, tenho isso. quase certeza de que, em algum momento, todos nós já fizemos — se não para nossos professores, pelo menos para nós mesmos — essa pergunta:
“Daqui a quanto tempo eu chego na faixa preta?”

Essa pergunta parece simples, mas ela revela algo muito comum: muitas vezes estamos tão focados no objetivo final que acabamos esquecendo de prestar atenção no caminho até ele.
Pensando nisso, imaginei uma pequena história para contar aos meus alunos. Uma história simples, mas que talvez ajude a entender melhor o que realmente importa nessa jornada. Gostaria de dividir essa história com vocês.
A História do Castelo e da Chave
Imaginem um viajante caminhando por uma estrada muito longa. Daquelas estradas que parecem não acabar nunca. Em certo momento ele levanta os olhos e vê, bem lá no horizonte, um castelo enorme. Torres altas, muralhas fortes, uma construção realmente impressionante. Ao ver aquilo, ele pensa imediatamente: “Eu preciso chegar até esse castelo.” Então ele começa a caminhar.
Desde o primeiro passo, porém, acontece algo curioso. Os olhos dele ficam sempre fixos no castelo. Ele caminha olhando apenas para frente, pensando no momento em que finalmente vai chegar lá. O tempo passa e ele continua andando, mas sem prestar muita atenção no caminho. E havia muita coisa interessante naquela estrada.

Flores diferentes cresciam nas margens do caminho, algumas muito raras. Pássaros coloridos cantavam nas árvores. Em certos trechos, pedras brilhavam no chão quando o sol batia nelas. E o mais curioso de tudo: em alguns pedaços da estrada, os próprios tijolos eram feitos de ouro. Mas ele não viu nada disso. Não porque não estivesse lá, mas porque estava ocupado demais olhando apenas para o castelo.
Depois de muito tempo caminhando, finalmente ele chega. O castelo era ainda maior de perto. As muralhas eram altas, e havia um portão enorme na entrada. Ele respira fundo e pensa: “Pronto. Consegui.” Então coloca as mãos no portão e tenta empurrá-lo. Nada acontece. Ele tenta novamente, com mais força, mas o portão continua fechado. Estava trancado.
Foi então que ele percebe um guarda parado ao lado. O viajante diz: “Eu caminhei tanto para chegar aqui. Quero entrar no castelo.” O guarda olha para ele com calma e pergunta apenas uma coisa:
-“Você trouxe a chave?”
O viajante fica confuso e responde: -“Chave? Que chave?”
Então o guarda explica que, logo no início da estrada, havia uma placa dizendo que naquele lugar seria encontrado o primeiro pedaço de uma chave. A placa também dizia que, ao longo de todo o caminho, outras partes dessa chave apareceriam para quem estivesse atento. Quem prestasse atenção na estrada poderia reunir todos os pedaços e, ao chegar ao castelo, teria a chave completa para abrir o portão.
O viajante fica em silêncio. Ele até se lembra vagamente de ter visto alguma placa no começo do caminho… mas passou direto. Estava olhando apenas para o castelo.
Nesse momento ele percebeu algo importante. Durante toda a caminhada ele havia passado por muitas coisas valiosas e não havia percebido nenhuma delas. Não viu as flores raras, não ouviu o canto dos pássaros, não reparou nas pedras brilhantes nem nos tijolos de ouro que formavam a estrada. Caminhou por todo o caminho, mas não prestou atenção nele.
O guarda então disse algo simples, mas cheio de significado. Disse que o castelo era importante, mas que ele só se abria para quem trazia a chave. E aquela chave não estava no castelo. Ela estava no caminho.
A lição da história aplicada ao karatê
Agora que ouvimos essa história, vale a pena voltar à pergunta que aparece tantas vezes nas aulas. Quem treina karatê há algum tempo já viu isso acontecer: o aluno começa e logo pergunta “Sensei, quando é o próximo exame?”, “Quanto tempo para trocar de faixa?” ou “Quanto tempo para chegar na faixa preta?”. E isso é normal. Em algum momento praticamente todo praticante pensa nisso.

Com o tempo, porém, começamos a perceber algo importante. A faixa preta é um pouco como o castelo da história. À primeira vista ela parece o objetivo final, mas na verdade é apenas uma porta. O que realmente transforma a gente é o caminho até ela: repetir um kihon muitas vezes até entender um detalhe, treinar um kata várias vezes até perceber algo novo, receber uma correção, ajustar e continuar treinando.
Quando alguém olha apenas para a faixa, acaba sendo como o viajante que caminhava olhando somente para o castelo. Ele pode até chegar lá, mas corre o risco de perder tudo o que o caminho tinha para ensinar. Por isso vale a reflexão: quando entramos para treinar, estamos apenas olhando para o castelo ou estamos aprendendo a caminhar?
Porque, no fundo, a faixa preta marca justamente o momento em que começamos a compreender o caminho.
Um mergulho filosófico
De forma geral, muitos de nós, seja praticantes de karatê, de outras artes marciais ou mesmo nos objetivos de nossas vidas, acreditamos que o valor está no objetivo final e não no processo da busca. Diversas artes marciais orientais já trazem em seu próprio nome a importância do caminho (Dō – 道). Porém, é importante ressaltar que, por vezes, diversos filósofos da cultura ocidental também destacaram a importância do caminho, do buscar, antes mesmo da chamada “verdade final”.
Um desses filósofos foi Sócrates (469 a.C. – 399 a.C.), conhecido como um dos fundadores da filosofia moral. Nasceu e viveu em Atenas, capital da Grécia. Defendia que, no ato de reconhecer a própria ignorância, reside a verdadeira sabedoria. A famosa frase atribuída a ele — “sei que nada sei” — expressa justamente a ideia de que o aprendizado é sempre contínuo. A chamada “arte de partejar” foi um método criado por Sócrates, inspirado por sua mãe, que era parteira. Ele se valia de perguntas direcionadas ao seu interlocutor, guiando-o para que pudesse “dar à luz”, através do diálogo, ao seu próprio conhecimento. Esse método ficou conhecido como maiêutica.
Outro filósofo que seguia uma linha de raciocínio muito próxima foi Platão (427 a.C. – 347 a.C.). Não é de se estranhar que ele tenha sido discípulo de Sócrates e também fundador da Academia de Atenas. Platão ensinava que o conhecimento não se resume apenas a possuir a verdade, mas envolve um movimento constante em busca da compreensão da realidade. Essa ideia aparece de forma emblemática na alegoria do Mito da Caverna, apresentada por Platão em sua obra A República, onde o conhecimento é demonstrado como um processo gradual de libertação e descoberta.
Seguindo essa mesma linhagem histórica, chegamos a Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.). Este, por sua vez, foi aluno de Platão e fundador do Liceu. Aristóteles afirma que a virtude — ou excelência humana — está relacionada à busca constante por se tornar uma versão melhor de si mesmo. Segundo ele, essa excelência não surge de forma imediata, mas vai sendo construída dia após dia por meio de hábitos e prática constante. Chega-se, assim, à conclusão de que o processo de formação é tão importante quanto o objetivo final.
Dando um salto temporal e também geográfico, não poderia deixar de citar Gotthold Ephraim Lessing (1729 – 1781), dramaturgo e filósofo alemão do Iluminismo. Em sua obra Eine Duplik, ele escreveu uma declaração bastante marcante sobre esse tema: “Se Deus segurasse toda a verdade em Sua mão direita, e na esquerda apenas o impulso sempre vivo para a verdade… e me dissesse: ‘Escolha!’, eu cairia humildemente sobre Sua mão esquerda e diria: ‘Pai, dá-me! Pois a verdade pura é apenas para Ti!’”. Assim, Lessing deixa claro que, entre possuir a verdade absoluta ou continuar buscando-a, escolheria a busca. O esforço contínuo de investigação e aperfeiçoamento intelectual revela, para ele, o valor mais elevado do espírito humano.
Assim, podemos perceber que há milênios existe um pensamento que se apresenta de forma recorrente: o conhecimento humano não deve ser visto como um ponto final de chegada, mas como um processo contínuo de investigação, aprendizado e transformação.
Existe uma frase dita no filme O Último Samurai (The Last Samurai, 2003) que, de certa forma, resume bem essa ideia: “A flor perfeita é uma coisa rara. Você poderia passar a vida inteira procurando por uma, e não seria uma vida desperdiçada.”

Talvez seja exatamente isso que muitos desses filósofos tentaram nos ensinar. A busca sincera pelo conhecimento — mesmo que nunca seja alcançado de forma definitiva — já é, por si só, uma vida bem vivida.
